Brasil é o 3º país com maior número assassinatos de crianças e adolescentes

Postado em 09/07/2016 10:15

Brasil é o 3º país com maior número assassinatos de crianças e adolescentes

Redação* | São Paulo - 12/07/2016 - 14h20

Apenas em 2013, 29 jovens foram assassinados por dia; negros morrem 178% mais que os brancos


Publicado no final do mês de junho, o relatório Violência Letal Contra as Crianças e Adolescentes do Brasil, elaborado pela Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais) aponta que o Brasil é o terceiro país com maior número de homicídios de crianças e adolescentes. O estudo revela que quase 29 jovens foram assassinados por dia no Brasil em 2013, ano em que 10.520 crianças e adolescentes foram vítimas de homicídio. O número equivale a 3,6 chacinas da Candelária por dia.Creative Commons

Homicídios impulsionam números negativos sobre mortalidade infantil no Brasil Produzido em parceria com a ONU (Organização das Nações Unidas), o levantamento foi encomendado pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente e pela Secretaria de Direitos Humanos. O trabalho foi conduzido pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador do Programa de Estudos sobre Violência da entidade, responsável desde 1998 pela série Mapa da Violência. O relatório foca nas causas externas de mortalidade no Brasil, mortalidade por acidentes de transporte, suicídios e homicídios, e tem como fonte o Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde. No total, as causas externas vitimaram 689.627 crianças e adolescentes entre 1980 e 2013. Neste período, enquanto as causas de morte natural diminuíram de forma contínua e acentuada nas três décadas analisadas, as causas externas cresceram sensivelmente. As taxas de mortalidade por causas naturais nas idades entre zero e 19 anos de idade caíram de 387,1 óbitos por 100 mil, em 1980, para 83,4, em 2013, uma queda de 78,5%. Por sua vez, as causas externas passam, no mesmo período, de 27,9 para 34,1, crescimento de 22,4%. Os homicídios foram de 0,7% para 13,9%; acidentes de transporte de 2,0% para 6,9%; e os suicídios, de 0,2% para 1,0%. O cenário aumentou de forma drástica a participação das causas externas no total de mortes de crianças e adolescentes no Brasil. Em 1980 as causas externas representavam 6,7% do total de mortes nessa faixa; em 2013, essa participação mais que quadruplica, elevando-se para 29,0% – 13,9% por homicídio, 6,9% em acidentes de transporte e 1,0% por suicídio. O relatório completo pode ser encontrado aqui e no site do Mapa da Violência.Homicídios Em 2013 aconteceram 3,6 chacinas da Candelária por dia no Brasil. Foram 10.520 vítimas de homicídio de zero a 19 anos. O país ocupa o 3º lugar em homicídios de crianças e adolescentes entre 85 países analisados, com a taxa de 16,3 assassinatos para cada 100 mil crianças e adolescentes de até 19 anos de idade, ficando atrás apenas do México e de El Salvador. O número de homicídios de crianças e adolescentes de até 19 anos de idade subiu 19,7% em 10 anos, entre 2003 e 2013. Em um ano, de 2012 a 2013, o crescimento foi de 3,6%. Os dados apontam que esta é a principal causa do aumento drástico nas causas externas das mortes de crianças e adolescentes.
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Os homicídios representam cerca de 2,5% do total de mortes até os 11 anos de idade, e têm um crescimento acentuado na entrada da adolescência, aos 12 anos de idade, quando passam a 6,7% do total de mortes. Aos 14 anos são 25,1%, crescendo até alcançar seu pico aos 17 anos de idade, quando atinge a marca de 48,2% da mortalidade.Negros morrem mais Os dados revelam que o número de crianças e adolescentes negros vítimas de homicídio é 178% maior do que jovens brancos, considerando a proporção das respectivas populações. Em 2013, no conjunto da população de até 17 anos de idade, a taxa de homicídios de brancos foi de 4,7 por 100 mil e a de negros, 13,1 por 100 mil. Quando se foca nos adolescentes de 16 e 17 anos, a taxa de homicídios de brancos foi de 24,2 por 100 mil. Já a taxa de adolescentes negros foi de 66,3 em 100 mil. A vitimização, neste caso, foi de 173,6%. Proporcionalmente, morreram quase três vezes mais negros que brancos.Armas de fogo Armas de fogo estiveram presentes em 78,2% dos homicídios de crianças adolescentes de até 17 anos de idade em 2013. Há um forte crescimento da participação das armas de fogo com o avanço da idade das vítimas. Durante o primeiro ano de vida, o instrumento causou 10,5% dos homicídios. O índice crescente atinge a marca de 84,1% aos 17 anos de idade.Suicídios Quase duas crianças e adolescentes de 9 a 18 anos consumaram suicídio por dia no Brasil, em 2013. Em quase todas as idades (excluindo a de 19 anos), as taxas de suicídio aumentaram entre 2003 e 2013. Em 2003, a taxa de suicídio na faixa de 9 a 19 anos era de 1,9 em 100 mil; em 2013, a média elevou-se para 2,1. O Ministério da Saúde só registra suicídios a partir dos 9 anos. Os índices de suicídio são relativamente baixos quando comparados a outros países, mas vêm crescendo lentamente ao longo do tempo. Nas comparações internacionais com mais 89 países, o Brasil ocupa a 43ª posição no ranking, com taxa de 0,7 suicídios para cada 100 mil crianças e adolescentes de 10 a 14 anos de idade; a 51ª posição entre os adolescentes de 15 a 19 anos, e a 53ª no conjunto de 10 a 19 anos de idade.Indígenas Os municípios que aparecem nos primeiros lugares nas listas de mortalidade suicida são locais de amplo assentamento de comunidades indígenas, como São Gabriel da Cachoeira, Benjamin Constant e Tabatinga, no Amazonas, e Amambai e Dourados, no Mato Grosso do Sul. Nesses municípios, do total de suicídios indígenas, os suicídios na faixa de 10 a 19 anos representam entre 33,3%, em São Gabriel da Cachoeira, e 100%, em Tacuru (MS), uma verdadeira situação pandêmica de suicídios de jovens indígenas.Acidentes de transporte O relatório mostra que o Brasil está entre os 15 primeiros países em letalidade de crianças e adolescentes em acidentes de transporte se comparado ao conjunto de outros 87 países, com base em dados da OMS (Organização Mundial da Saúde). A mortalidade de motociclistas é a principal causa de morte por acidentes de transporte da faixa etária, e aumentou 1.378,8% entre 1996 e 2013, passando de 113 para 1.671 por ano. A maioria dessas vítimas (1.514) tinha entre 15 e 19 anos. Mortalidade em automóveis teve aumento de 65,8%, passando de 742 óbitos em 1996, para 1.230, em 2013. Já as mortes de crianças e adolescentes pedestres registraram queda de 68,8%. Foram 2.770 óbitos em 1996 e 863 em 2013. A média nacional de 8,1 vítimas de acidentes de transporte por 100 mil crianças e adolescentes, registrada em 2013, não reflete a grande variação regional e estadual, que vai de 3,7 vítimas por 100 mil crianças e adolescentes, no Amazonas, a 17,2 em Mato Grosso. Estes dados evidenciaram uma tendência crescente desde 1980 até 1997, ano em que entrou em vigor o Código Nacional de Trânsito. As taxas caíram de forma significativa nos primeiros anos até a virada do século, quando os índices se estabilizam. As mortes voltaram a crescer a partir de 2008 quando houve aumento na mortalidade de crianças com menos de 1 ano de idade, passando de 2,7 para 4 mortes em cada 100 mil crianças, um crescimento de 45,4% no período. Os níveis de mortalidade permanecem relativamente estáveis ao longo da escala etária de 1 ano de idade até aproximadamente os 13 ou 14 anos. A partir dos 16 anos, constata-se novo crescimento e, em alguns casos, bem significativo, como entre 17 e 18 anos de idade, quando o aumento supera a casa de 50%.(*) Com informações da Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais).

Fonte: Jornalista